domingo, 3 de junho de 2018

CAPÍTULO 33 - Não Fuja

CAPÍTULO 33
Não era uma fumaça negra que emergia das fissuras abertas no chão. O zumbido
ensurdecedor que martelava meus ouvidos tinha uma explicação: Escaravelhos de Hao!
Milhares deles! Entretanto, terror maior ainda estava por ser evidenciado. As terríveis criaturas
eram capazes de penetrar nos Umbris e conferir-lhes poder, pois, no instante em que estes
estavam sob seu domínio, seus corpos espectrais ganhavam potência física e começavam a
rasgar, com unhas, dentes e força descomunal, a membrana mágica que envolvia a catacumba
e protegia a terceira dimensão.
A compreensão do que acontecia ao meu redor me arrasava: Malazar havia encontrado
um jeito de sair da catacumba e chegar à segunda dimensão através dos outros quatro
portais de Zyrk. Mas não sem antes destruí-la!
Uivando alto, os Umbris avançavam, rompendo a barreira mágica em vários pontos e
atacando os zirquinianos com selvageria. Em seu desespero para possuir suas vítimas,
sedentos e insaciáveis, os espectros malditos sugavam as almas e dilaceravam os corpos dos
que se encontravam em seu caminho.
Richard tinha o olhar atordoado, tão catatônico quanto o meu com o que víamos
acontecer do outro lado da membrana.
A grande e inesperada surpresa!
Uma multidão de zirquinianos bramia alto e chocavam suas espadas no ar. Pela primeira
vez na história, estavam unidos em nome de uma causa comum: defender aquilo que,
amaldiçoado ou não, era a sua morada, o seu único lar.
Eles lutariam por Zyrk!
Emocionada, vi os magos e homens de branco do Grande Conselho, soldados dos quatro
clãs e as mendigas sombras guerreando lado a lado e defendendo uns aos outros dos ataques
mortais dos terríveis Umbris. Os seres malignos, entretanto, tinham força descomunal e
tornavam a batalha injusta. Ainda que bravamente se esforçando, o exército zirquiniano
apresentava baixas expressivas e, com o espírito combalido, começou a recuar. Malazar
lançava suas garras no ar e avançava sobre o paredão mágico, agora enfraquecido pelo
ataque de seu exército de Umbris.
— Você não vai sair dessa catacumba, Malazar! — a voz angulosa do pequenino Sertolin
repercutiu alto. Ele havia entrado no caminho do demônio quando este estava prestes a
colocar as garras do lado de fora da catacumba.
Malazar emitiu um som estranho em resposta e, no momento seguinte, vários
escaravelhos voavam em direção a Sertolin. Apesar de resistir heroicamente, o pequeno mago
acabou perdendo a batalha para o enxame de insetos negros e, contorcendo-se, desmoronou
aos pés do inimigo.
E novamente o inesperado aconteceu!
— Nunca! — trovejou Shakur, surgindo de repente. Ele rodopiou os braços no ar e,
mesmo com as forças decadentes, fez o corpo de Sertolin desaparecer no exato momento em
que Malazar ia esmagá-lo.
O pequenino mago reapareceu à sua frente, amparado em seus braços.
— Ismael! Como...? — murmurou com espanto e emoção. Havia uma aura mágica entre
os dois. — Filho querido, você...
— E-Eu o decepcionei, mestre. Sinto muito — balbuciou com urgência o líder de preto.
Suas forças chegavam ao fim.
— Não se desculpe. O erro foi meu. Você era bom demais para ficar nessa dimensão,
Ismael. Bom demais — respondeu o chefe do Grande Conselho. Ismael abriu um sorriso triste
e, após suspirar profundamente, tombou morto nos braços de Sertolin.
— Pai! — Meu grito de dor foi abafado pela mão de Richard em minha boca.
— Shhh! — Os dedos de Rick afundaram em minha pele e o tremor de meu corpo se
refletiu no dele. O coitado fechou os olhos com força, evidenciando que também sofria. Com
meu coração em ruínas, testemunhei o último gesto de amor daquele homem extraordinário:
Shakur havia acabado de doar seu último resquício de vida para salvar o antigo mestre.
— Morram, magos estúpidos! — Ultrajado com o ataque malsucedido, Malazar
esbravejou alto e, em sua luta particular, voou com as garras apontadas para cima dos dois.
— Afaste-se deles! — bradou a inesperada voz de trovão que repercutiu no lugar. Era de
Guimlel!
Como Shakur havia mencionado, Guimlel controlava as forças da natureza com uma
precisão excepcional e, modulando o vento, fez um ciclone de dimensões assustadoras
envolver a besta, paralisando seu ataque e a enfurecendo ainda mais. Malazar revirava o rosto
vermelho de fúria, agitava as garras no ar e lançou uma rajada de fogo sobre o mago, mas
Guimlel foi rápido. Não só controlou a força das chamas com outra rajada de vento e chuva,
como inverteu sua direção. O fogo explodiu em centelhas e se alastrou pelas escamas no
dorso da fera. O demônio uivou e fugiu ao confronto direto. Ardiloso, ele mudou de estratégia
e começou a chicotear sua cauda de um lado para o outro. Tentava camuflar seus golpes
fazendo com que o cintilar do seu ferrão que serpenteava no ar passasse despercebido em
meio às centelhas de fogo que ainda pipocavam no ambiente. Mesmo com seus quase dois
metros de altura, Guimlel era ágil e se desviava dos ataques com facilidade, mas foi
surpreendido pelo pior de todos os golpes.
— Nãooo! — Foi a vez de escutar o ganido de Richard. Ele ameaçou correr em direção a
Guimlel, mas a perna dilacerada o fez estancar o passo. Rick estremecia de impotência ao
meu lado ao presenciar a perda do outro zirquiniano por quem nutria grande estima. Guimlel
estava de joelhos e tinha as mãos ensanguentadas pressionadas no peito. Von der Hess agira
da forma em que era mestre, sorrateira e traiçoeiramente. A víbora albina o alvejara de forma
covarde e mortal, acertando-lhe uma espada pelas costas. — Não — Rick gemeu mais uma
vez. A cabeça calva de Guimlel se virou em direção a Richard e lhe lançou um sorriso de
arrependimento, de despedida. O mago fez um gesto com as mãos para que Rick ficasse
onde estava, relembrando-o com um simples olhar que ele tinha de sobreviver, que ele era um
guerreiro excepcional, mas que aquela luta de forças místicas não lhe pertencia. Richard arfou
alto, um arfar de dor e perda, mas assentiu num doloroso movimento de cabeça. Naquele
instante, pude compreender (e perdoar) as ações de Guimlel. Seu caráter não era mau.
Simplesmente acreditava com tanta devoção na lenda, no herdeiro de Richard e em seu
propósito de salvar Zyrk do terror das feras da noite, que se utilizara de meios obtusos para
consegui-lo.
Malazar regozijou no lugar e soltou uma gargalhada ao presenciar a morte de Guimlel.
Em meio ao caos, uma energia brilhante surgiu repentinamente no ar e penetrou no corpo
musculoso da besta. Em seguida, o monstro dobrou de tamanho e, sem perder tempo,
avançou sobre a muralha mágica. Catatônica como toda a multidão de zirquinianos, vi quando
sua cabeça e suas garras dianteiras conseguiram romper a barreira mas, de repente,
estancaram.
Um estrondoso guinchar de desespero.
— Mais força! Eu preciso de mais energia! — ordenava furiosamente o demônio ao seu
exército de Umbris ao perceber que a metade posterior de seu corpo permanecia presa à
catacumba a despeito da força descomunal que empregava.
— Rápido! Para o portal! Vá na frente, Nina! — Richard ordenou com a voz rouca e
subimos as pedras cintilantes. Eu conseguiria ir mais rápido, mas o estado deplorável de sua
perna o atrasava consideravelmente. Ele implorou para que eu o deixasse e continuasse o
percurso, mas não o fiz. Nunca mais o abandonaria. Os zumbidos aumentaram de volume e já
não sabia identificar se eram os escaravelhos ou meu coração dando pancadas frenéticas
dentro dos meus ouvidos. — Foge, Nina! — Richard soltou um berro apavorado antes de cair
aos meus pés e se contorcer violentamente.
— Rick! — Ainda tentei segurar sua mão, arrastá-lo, puxá-lo para junto de mim. Tudo em
vão. Uma presença estranha, pesada, pairava sobre meu corpo e energia. Uma figura albina
sorria maliciosamente em minha direção: Von der Hess! Tremi. Os zumbidos triplicaram de
volume e meus tímpanos latejaram a ponto de explodir. Tudo começou a girar e meus joelhos
tombaram de encontro ao chão. — Argh!
Senti minhas forças sendo drenadas rapidamente e o mundo ficou embaçado em uma
nuvem de escaravelhos e lágrimas.
E, ainda assim, eu vi.
Magos, reis, soldados e sombras se contorcendo no chão, todos eles derrotados pela
batalha impossível. Tudo ruía: Zyrk, os zirquinianos, eu, o homem que eu amava, nossos
sonhos. A lenda em que acreditavam era uma mentira. A terceira dimensão seria finalmente
eliminada. Faltava muito pouco para Malazar e seu séquito aterrador conseguir transpor a
barreira da catacumba e entrar definitivamente na terceira dimensão.
Malazar e seu exército tinham vencido a batalha.
— Morram, besouros desgraçados! — A voz da Sra. Brit surgia como um cochicho em
minha mente, distante. Eu devia estar delirando... Outros zumbidos. Uma nova nuvem negra
avançava sobre as centenas de corpos e cabeças.
Oh, não! Mais escaravelhos!
As contrações dos espasmos musculares eram intensas e custei a compreender o que
acabava de acontecer: a Sra. Brit chegava acelerada em uma carroça e, ao entrar na
catacumba, retirou apressadamente as tampas dos vários barris de madeira que trazia
consigo. Uma grande quantidade de escaravelhos semelhantes aos utilizados por Von der
Hess saía nervosamente de dentro deles. Estremeci ao vê-los atacar os pobres corpos que já
se debatiam compulsivamente. Fechei os olhos e, sem saber o que fazer, rezei para um deus
que não sabia se existia. Pedi que tivesse piedade de nós e nos presenteasse com um fim
sem sofrimento. Novos berros estranhos. Descerrei os olhos e, embasbacada, presenciei o
milagre que acabava de acontecer: as novas criaturas eram nossas aliadas! Seu alvo não
eram os zirquinianos, muito pelo contrário. Os novos escaravelhos caçavam os Escaravelhos
de Hao e os matavam, ou melhor, alimentavam-se deles, salvando o povo de Zyrk do terrível
ataque. Os zirquinianos pararam de se contorcer no chão e começaram a se recuperar. Sem
os escaravelhos, os Umbris perderam sua força física e recuaram para trás da linha
delimitadora.
Malazar recuava.
Com a autoestima elevada, os zirquinianos avançavam, encurralando o inimigo em sua
própria catacumba. A batalha voltou a ficar a nosso favor! Meu peito ardia de felicidade em ver
Wangor, meu avô, deixar as desavenças para trás e lutar lado a lado com Ben, um resgatador
de Thron, e de Kaller, líder de Storm, assim como presenciar os homens do Grande Conselho
aceitarem de bom grado a ajuda das rejeitadas sombras e vice-versa. Não havia mais
rivalidades ou quatro clãs distintos. Todos eram zirquinianos e lutavam por suas vidas e por um
bem comum.
— Nina, você está bem? — acelerado, Richard me despertava dando tapinhas gentis em
minha face.
— A Sra. Brit conseguiu — soltei em estado de euforia.
— Sim, mas foi ideia de Shakur.
— Foi essa a missão secreta? Quando precisou se afastar do nosso grupo?
Rick assentiu e abriu um sorriso triste.
— Ele sempre foi um homem excepcional. Agora descansará em paz. — Contive a todo
custo a vontade de chorar. Shakur não ficaria feliz em me ver derramar uma lágrima por sua
causa. — Não tenho condições de te carregar. Consegue andar?
— Acho que sim.
— Então venha. Você precisa sair daqui! — ordenou impaciente.
— Mas a guerra está quase no fim. Veja! Nós estamos ganhando! — rebati sem
compreender seu nervosismo em ascensão.
— Não. Não estamos ganhando — ele rosnou enquanto acelerava na subida e me puxava
com força em direção à Chawmin.
— As duas dimensões não correm mais risco. Malazar está encurralado e não pode me
fazer mal algum. — Estanquei o passo a poucos metros da saída.
— Mas os meus podem!
— Rick, quando é que vai colocar na sua cabeça dura que eu não vou mais fugir?
— E quando é que você vai cumprir alguma promessa que tenha me feito? — rebateu ele
com a voz ácida e estranha.
— Não acredito que estamos discutindo em meio a uma guerra, Richard! — guinchei. —
Eu voltei por nós, droga!
— Pois eu quero que você vá embora! E agora! — trovejou.
— Eu voltei porque te amo! — esbravejei ao mesmo tempo surpresa e furiosa. Não
queria admitir, mas uma parte dentro de mim não gostou daquela reação de Richard.
— Você disse que o ama? — Dei um salto quando, subitamente, a voz do demônio
reverberou como um sino pela catacumba e aniquilou todos os demais sons. Por cima do
ombro vi Malazar aparecer como mágica às nossas costas. Num piscar de olhos a besta havia
se transformado e novamente dado lugar ao senhor de cabelo e terno brancos.
— Merda! — Rick praguejou baixinho.
— Você o ama? Foi isso mesmo o que ouvi? — o demônio indagava aos berros. Seus
olhos negros e arregalados comprovavam o quanto estava surpreso com a inesperada
descoberta. Chequei ao redor e, atordoada, entendi o que acabava de acontecer: Umbris e
zirquinianos paralisaram a luta. Todos eles estavam catatônicos e mais atentos ao nosso
diálogo do que à batalha.
— Sim! — enfrentei Malazar com força e decisão e escutei o murmurinho da multidão
abaixo de nós.
— A híbrida o ama... — soletrou a palavra com sarcasmo ferino. O diabo olhou para o
céu negro de Zyrk e abriu um sorriso cruel. — Você se superou, papai.
— Venha, Nina! — Com a perna sangrando muito, Rick me puxava com força e tentava
desesperadamente eliminar os últimos metros que faltavam para chegarmos ao portal.
— Está de parabéns pela escolha, filha. Se apaixonou pelo meu zirquiniano predileto, ou
seria melhor dizer, pelo pior dessa espécie?— Ágil como uma serpente, Malazar interceptava
nosso caminho. Havia um brilho feroz em seus olhos negros quando encarou Richard.
Rapidamente me coloquei à frente de Rick, protegendo seu corpo com o meu. Algo me dizia
que ele corria perigo e, contra mim, o demônio nada poderia fazer.
— Cale a sua boca, maldito! — escutei o rosnado de Richard atrás de mim enquanto ele
envolvia a minha cintura.
— Está nervoso agora, resgatador? Achou que sairia como inocente do nosso trato?
Trato?
— Seu amado não lhe contou o que andou fazendo, filha? Por que não lhe pergunta se
ele lhe esconde algum segredo? — As indagações de Malazar me desequilibraram. Senti os
dedos de Richard afundar em minha pele e instantaneamente um calafrio sutil percorreu minha
nuca.
Ah, não! De novo, não!
— Não lhe dê ouvidos, Nina. Ele está blefando.
— Por que você acha que a força deste resgatador é acima do normal, Nina? — Malazar
não perdia tempo.
— Ele sempre foi assim! — rebati, recordando-me muito bem das explicações da Sra.
Brit.
— Engana-se redondamente — refutou o demônio com sarcasmo. — Eu o fiz assim. Ele
sobreviveu ao ataque da besta em sua infância porque eu o ressuscitei. Guimlel sabia disso! É
o meu sangue que corre em suas veias!
— Rick nunca lhe pediu para salvá-lo — disse, mas por sobre os ombros vi meu guerreiro
perder a cor e enrijecer. A terrível notícia era bombástica para ele também.
— Por que se ilude, garota? Richard é minha cria, o famoso filho do mal! Toda a Zyrk
sabe disso!
— Ele não é seu filho! — rugi. — Rick não lhe vendeu a alma por isso!
— Por isso não — Malazar destacou a palavra e arqueou as grossas sobrancelhas
brancas.
Hã?
Richard fugiu do meu olhar inquisidor. Engoli em seco.
— Tudo faz parte de uma grande farsa, Nina. Você foi usada por ele! — bradou o
demônio com um sorriso sutil nos lábios e foi a minha vez de empalidecer. — Mas você não foi
a única a ser enganada nessa história. Acredita que ele quis me ludibriar também? Seria até
uma atitude admirável, se não fosse comigo. Pobre criança! Tem tanto a aprender... Achou
que poderia brincar com fogo e sair sem se queimar — gargalhou alto ao ver o brilho da dúvida
refletir em meus olhos. — Esse resgatador utilizou-se dos seus sentimentos por ele em
proveito próprio. Salvou-a em algumas situações para fazê-la acreditar em suas boas
intenções, mas é um mercenário e um traidor. Seu único objetivo era se tornar o governante
absoluto de Zyrk!
— Nina, não preste atenção ao que ele diz! É tudo mentira! — Rick argumentava, mas
sua voz saía fraca, vacilante.
Ainda o protegendo com o corpo, senti sua respiração descompassada em minha nuca.
Respirei fundo e, lutando contra a erva daninha que germinava com velocidade em meu
espírito, acreditei nele. Malazar era a síntese da maldade e toda aquela encenação fazia parte
da arte em que ele era mestre: enganar.
— Nina, você sabia que só é possível adquirir uma pedra-bloqueio após entrar no Vértice
e me dar a alma em troca de algum favor? — acrescentou o demônio sem perder tempo e
perdi o ar, incerta de como respirar. — Como acha que Richard conseguiu as duas pedras que
lhe presenteou?
Por sobre o ombro, tornei a olhar para Richard que, nervoso, balançava a cabeça de um
lado para o outro.
— Rick? — indaguei num murmúrio sem força.
— E-eu não... — Rick tinha a respiração entrecortada e, hesitante, olhou de maneira
transtornada para a população que nos encarava. Sua estranha reação nocauteava minhas
certezas. — Não enxerga que é exatamente isso o que ele quer? Malazar está te jogando
contra mim, Nina!
— Posso lhe assegurar que Richard de Thron, para meu orgulho, é o zirquiniano mais
ambicioso de toda a história de Zyrk! Está lhe usando de acordo com seus próprios
interesses. Ele nunca te... amou! Richard sempre idolatrou uma única coisa na vida: o poder.
Meu Deus... As palavras de John!
— Mentira! Eu te amo! Foi por isso que conseguimos ter o contato mais íntimo! — Rick
contra-atacou, segurando meu braço com força e esbravejando aos quatro ventos. Foi o
suficiente para que o murmurinho da população se transformasse em um amontoado de
exclamações de surpresa, vozes emocionadas e diálogos acalorados.
O demônio estava testando minha fé. Só podia ser isso...
Fechei os olhos e respirei fundo. Não podia sucumbir ao veneno de Malazar. A noite de
amor que tive com Rick me dera a certeza de que ele me amava.
— O que ele ama — Satanás tornou a destacar a palavra — é ser idolatrado. Não posso
negar que admiro essas duas características minhas que correm em suas veias: a ganância e
a vaidade! Mas Richard superou minhas expectativas. Se tornar um resgatador principal ou o
líder de Thron era pouco para ele! Ele queria ser o governante absoluto da terceira dimensão
e só você poderia lhe dar tal poder!
— Você precisa sair daqui agora, Nina! — tenso, Richard sussurrava em meus ouvidos
enquanto tentava me empurrar em direção a Chawmin.
Não. Não. Não. Não podia ser. Você não me enganou de novo, Rick. Por favor, você
não pode ter feito isso comigo.
— Vai fugir? Não quer saber a verdade ao menos uma única vez em sua vida? —
Malazar indagou com estrondo, congelando-me a poucos passos do portal com seu novo
contra-ataque. — Veja com os próprios olhos e decida por si mesma o que acha ser
verdadeiro ou não!
Sem perder tempo, o demônio estendeu os braços e um clarão se formou no céu escuro
de Zyrk. Uma projeção se destacava de dentro da claridade. O murmurinho das pessoas deu
lugar a um silêncio sepulcral e aterrorizante. Podia pressentir que algo ruim estava prestes a
ser exibido. O grande clarão se expandiu e o trailer que rasgaria o meu coração em pedaços
ganhou vida diante dos meus olhos. Dentro da projeção, identifiquei o caminho de flores
brancas e amarelas que ia em direção a uma simpática casinha: era o Vértice! Nele Richard e
Malazar apertavam as mãos em uma finalização de acordo.
“—Está feito! Poderá possuir o corpo da híbrida, resgatador. E dessa vez não vai correr
o risco de matá-la — dizia o demônio com semblante satisfeito.— Aproveite a oportunidade
única.
— Com certeza. — Richard sorria. — Preciso ir. Onde está?
— Aqui está sua pedra-bloqueio.
Dentro das imagens vi quando Rick levantou as mãos e, dessa vez, mal dei atenção às
suas cicatrizes. Meus olhos observavam, hipnotizados e apáticos, a pequenina pedra marrom
que Malazar depositava entre seus dedos. Estremeci da cabeça aos pés ao identificar que era
a mesma pedra que Richard havia me presenteado.
— Usufrua! Veremo-nos em breve.”
— Como acaba de ver, Richard vendeu a alma a mim! — concluiu Malazar ao término da
projeção. — Mas, como disse antes, ele também me enganou. Quando me procurou, seu
motivo era o mesmo que conduziu os atos de Dale, seu pai biológico. Ele queria sentir! Richard
de Thron estava ensandecido para usufruir das sensações que você poderia lhe oferecer. Veio
transtornado ao meu encontro, logo após quase tê-la matado em uma tentativa fracassada. —
Malazar me atropelava com as terríveis revelações. Meu estado de perturbação se agravava.
— Mas o principal desejo de Richard havia sido maquiavelicamente ocultado até essa noite.
Ele sempre quis o poder! Sinto dizer, filha, mas você foi apenas uma gratificação a mais.
— Não... — balbuciei.
Meu mundo era uma mortalha de silêncio e dúvida. Minha mente entrara em colapso e
minha fé fora colocada à prova, equilibrando-se desajeitada e perigosamente em uma delgada
corda sobre um precipício.
— V-Você realmente vendeu a sua alma para ele, Rick? — indaguei com o peito em
chamas, girando o rosto para encará-lo. Richard franziu a testa com força, fechou as mãos e,
trêmulo, confessou o inconfessável.
— Sim. Mas foi pela pedra-bloqueio e não para possuir seu corpo ou poder. Eu venderia
quantas almas tivesse se isso fosse o suficiente para te salvar, Tesouro. Todas as loucuras
que fiz foram para te proteger, para que você sobrevivesse — disse, mas tudo que eu
conseguia captar era o desespero no seu tom de voz. Sua face amedrontada assemelhava-se
a uma lâmina gelada que cortava minha esperança em pedaços.
Tentei controlar o ardor das labaredas que se alastravam rapidamente em meu espírito.
O fogo da decepção me consumia sem piedade.
— Não percebeu ainda que está protegendo o verdadeiro inimigo, Nina? — bradava o
diabo. — Assim que o sol nascer, Richard vai te eliminar e ser idolatrado por essa raça
inferior. Ele só almeja o poder!
— Ele está jogando conosco, Nina! — Rick retrucava.
— Ele vai te matar assim que isso tudo acabar, Nina — o demônio destacava cada
palavra com força.
— Não! — Rick esbravejou e suas mãos trêmulas desataram a me puxar em direção ao
portal, mas ele não me encarava mais. Um sino de alerta ressoou em minha mente e espírito.
— Você me traiu — murmurei desolada ao identificar a mentira estampada nas feições
do homem que eu amava e, num rompante, soltei-me de sua pegada.
E o demônio não perdeu tempo!
Assim que saiu da minha proteção, o corpo de Richard foi violentamente sacudido no ar e
arremessado contra o paredão de rochas reluzentes. No momento seguinte ele caía de boca
ao chão, a testa coberta de sangue e o braço esquerdo retorcido em um ângulo estranho. Mal
conseguindo acompanhar a velocidade dos acontecimentos, eu o vi se contorcer no chão,
sufocando, os olhos revirando, perdendo os sentidos. E, por alguns instantes, nada senti.
Congeladas dentro da súbita avalanche de incertezas, minha mente era um lugar vazio; minha
alma, uma tela em branco.
Apática, vi Malazar atacar para matar. Uma ira desmedida até mesmo para o demônio
e podia jurar que existia algo mais em andamento... Malazar parecia ansioso. Mais do que
isso. Estava desesperado em acabar com a vida de Richard. Por que o demônio perderia
seu tempo precioso eliminando um mero zirquiniano? O que estava acontecendo ali, afinal?
— Morra! — o demônio vibrava com os olhos mais escuros do que nunca.
— A-Acredite em mim, Tesouro, e-eu... — Rick arranhou um choro que nunca antes vi
sair de sua boca.
Voltei a mim ao vê-lo ali caído, clamando, e, pela primeira vez na vida, indefeso. O azul
hipnótico de seus olhos faiscava em meio a poças de água do desamparo e despedida.
Lágrimas... Com elas, Richard tentava ocultar aquilo que lhe era tão novo quanto o sentimento
que efervescia bruscamente em minha mente e coração.
Suas lágrimas. Minhas verdades. Seu sofrimento. Minha libertação.
Um trovão altíssimo reverberou pela catacumba, pegando-nos de surpresa. Em uma
fração de segundo, o demônio se traiu ao checar o céu escuro de Zyrk e vasculhar o ar
quando Richard fechou os olhos. Havia desespero refletido em seu semblante. Malazar ainda
tentou disfarçar ao perceber que eu o observava atentamente. Tarde demais. Ele tinha
cometido o grande erro.
“Acredite em mim.”
As últimas palavras de Rick alcançaram um lugar até então intocado em meu coração.
Instantaneamente o ar ficou diferente. Eu estava diferente. Tremi com a súbita descarga no
peito. O manto da névoa e da dúvida era removido e uma nova e surpreendente emoção, até
então não compreendida, ganhava espaço e se expandia em minhas células e espírito: siga os
sinais...
Eu havia decifrado a charada!

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