Histórias da Cabalá - o Padeiro, o Mendigo e a Arca
Na porção Lech Lechá, Rav Berg conta uma história, da época do Ari – Rabino Isaac Lúria:
Certa tarde, o padeiro da vila, pensando no Criador, teve uma inspiração: resolveu oferecer a Ele o melhor pão que jamais fizera.
Depois de assar com devoção dois pães perfeitos, foi à sinagoga, que estava vazia, e abriu a Arca. Disse:
“Altíssimo, por favor aceite com agrado essa oferenda, um humilde agradecimento por tudo o que tenho recebido.”
Colocou os pães no interior da arca, fechou-a e saiu.
Cinco minutos mais tarde, entrou um mendigo; estava faminto, e viera orar e pedir por alimento. Rezou, aproximou-se da Arca e disse:
“Rogo, Altíssimo, tenho fome.”
Abriu a Arca para beijar a Torá, e qual não foi sua surpresa ao encontrar dois pães, ainda quentes. Seus olhos encheram-se de lágrimas, não apenas pelos pães, mas por ter merecido um milagre.
Na manhã seguinte, o padeiro voltou para ver se sua oferenda fora aceita. Abriu a Arca e viu que os pães não estavam mais ali. Sentiu-se o homem mais feliz do mundo, foi para casa, abraçou a esposa e dançou de alegria com ela.
‘Quem sabe o Altíssimo aceite outra oferenda” - pensou.
Fez novos pães com a mesma devoção e levou-os à Arca, onde os deixou. Pouco depois, veio o mendigo para agradecer e encontrou os pães, que aceitou, cheio de reconhecimento.
Quatorze anos se passaram, e à cada dia, esse ritual repetia-se, para alegria tanto do padeiro quanto do mendigo; ambos estavam felizes com o milagre que ocorria.
Certo dia, o rabino da sinagoga adormeceu em seu escritório, e foi acordado por um ruído próximo à Arca; aproximou-se para verificar e observou o padeiro, que trazia os pães, repetindo seu ritual, e partindo em seguida. O rabino ainda pensava sobre isso, quando entrou o mendigo, orou e suplicou por alimento. Abrindo a arca, encheu-se de alegria, apanhou os pães e saiu.
O rabino, que não fora visto, pensou: ‘Preciso corrigir isso’. No dia seguinte, chamou a ambos ao seu escritório. Disse-lhes:
“Não sei o que pensam que está acontecendo... você, padeiro, vem todos os dias, com sua oferenda, e acredita que Deus a aceita... e você – olhou o mendigo – imagina que Deus o está alimentando, por milagre. Mas o que ocorre é que um coloca os pães, e o outro os retira. Deus não está envolvido nisso.
Nesse instante, entra o Ari, e encontra os três. Olha para o rabino e diz:
“Rabino, prepare-se para deixar esse mundo. Irá partir antes do final do dia.”
“Mas por quê? O que fiz para merecer isso?– responde atônito o rabino.
“Com certeza Deus está consciente desse assunto! – explica o Ari. – Não acha que seja um milagre, que por catorze anos os dois nunca se encontrassem? Você deveria ter partido deste mundo no dia do primeiro pão, rabino, mas o Criador ficou tão feliz com isso, que impediu o Anjo da Morte de vir. Foi isso que o manteve vivo por quatorze anos, rabino, a alegria do Altíssimo, e também o mendigo, se não tivesse recebido esses pães!”
Fernando Martins

